A dor do merthiolate só sabe quem sentiu

Postado por: Sinttel RN Categoria: Artigos

Por Klinger Brito

Ultimamente tenho mergulhado em reflexões sobre esta nova geração. O uso excessivo de celulares e redes sociais parece estar corroendo nossa capacidade de criar, sentir e experimentar a vida em sua plenitude. Como diz o ditado: “Rapadura é doce, mas não é mole não”. Se não aprendermos a lidar com a dor, a frustração e os revezes da existência, formaremos uma sociedade com o limiar da resiliência cada vez mais frágil.

Como escreveu Santo Agostinho: “A dor é o modo como a natureza nos obriga a prestar atenção.” Sem dor, não há consciência; sem consciência, não há evolução.

Viver a realidade nunca foi fácil e o ser humano, na busca por atalhos, muitas vezes escolhe caminhos que apenas simulam conforto. O celular, nos dias de hoje, tornou-se a Caverna de Platão contemporânea: vivemos hipnotizados por sombras de conexão, enquanto o mundo real — com suas texturas, cheiros, dores e verdades — nos escapa. Quantos ainda sentem a areia da praia nos pés, encaram perdas com maturidade ou questionam o que é real em meio a tantas ilusões digitais?

Carl Jung dizia: “Quem olha para fora sonha; quem olha para dentro desperta.” Estamos sonhando acordados, enquanto nossa alma adormece diante de telas brilhantes.

Estamos na Quarta Revolução Industrial, imersos em uma crise climática sem precedentes, mas grande parte da energia humana é desperdiçada com fake news, superficialidades e negação da ciência. Enquanto isso, milhões passam fome, falta água potável e o planeta grita por socorro. É paradoxal: em plena era da inteligência artificial e da exploração espacial, regredimos em humanidade. Relações sociais apodrecem, diálogos são substituídos por algoritmos, e espiritualidade genuína é ofuscada por dogmas vazios ou culpas transferidas.

Como rezava São Francisco de Assis: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.” Mas hoje, ao invés de instrumentos da paz, tornamo-nos instrumentos da distração.

Precisamos urgentemente ressignificar nossa existência. Reconectar-nos à natureza, olhar nos olhos, tocar sem mediações. Cultivar a criatividade que nasce do tédio, da pausa, do “não fazer”. Questionar verdades prontas — seja a terra plana ou o negacionismo científico — e abraçar a complexidade do mundo. Como sociedade, urge priorizar o coletivo, a educação crítica e a sustentabilidade.

Santo Agostinho também disse: “A medida do amor é amar sem medida.” Talvez devêssemos começar por aí — amar mais o mundo, o outro e a nós mesmos, com menos filtros e mais presença.

Se não repensarmos nossos valores, a civilização caminhará para o colapso. E então, seremos lembrados não pelo que construímos, mas pelo que destruímos ao escolher a facilidade sobre a sabedoria.

“Aquilo a que você resiste, persiste”, alertou Jung. E se resistirmos à transformação, será a própria crise que nos transformará — à força.

A força do homem não está na dominação, mas na sinergia com a natureza, num momento vibratório único. Temos que pensar em sintonia, vibrar em harmonia com o que nos cerca — seja a terra que pisamos, o alimento que cultivamos ou o silêncio que nos ensina.

Como diria São Francisco: “É dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado.” Talvez seja hora de voltarmos a ouvir — a terra, o outro, a nós mesmos.

Klinger Brito é empregado na TIM S/A e integrante da Direção do Sinttel/RN

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